CANDIDO,
Antonio. De cortiço a cortiço. In: ___. O discurso e a cidade. São
Paulo; Rio de Janeiro: Duas Cidades; Ouro sobre Azul, 2004, p. 123-152.
O Reino Animal
Uma espécie de animalidade geral que tem sido apontada por mais de um crítico
em todos os planos do livro, a começar pelo conjunto da habitação coletiva,
vista como “aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas”, que manifestam o
“prazer animal de existir”, mais atenuado noutro trecho, onde se fala d’”aquela
massa uniforme de machos e fêmeas a comichar, a fremir concupiscente,
sufocando-se uns aos outros”; e logo depois vemos “as mulheres (que) iam
despejando crianças com uma regularidade de gado procriador”.
Mesmo em contexto não sexual as mulheres aparecem “mostrando a uberdade das
tetas cheias”, o que ocorre também quando se trata de cada uma isoladamente,
como na cena em que o Henriquinho (um hóspede no sobrado do Comendador
Miranda), vê da janela Leocádia lavando roupas e o “tremular das redondas tetas
à larga”.
Essa animalização feita pelo narrador se mostra brutais para as normas
daquele tempo: Como nessa passagem que mostra o pranto de Piedade de Jesus: “O
mugido lúgebre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do
cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe, perdida
ao cair da noite num lugar desconhecido e agreste”.
A passagem acima nivela o homem ao
bicho, enquanto organismos sujeitos ambos às leis decorrentes da sua estrutura. Até em efeitos estilísticos meramente descritivos vemos a mesma tendência:
“a
sua crina preta, desgrenhada, escorrida e abundante como as das éguas
selvagens”.
A
redução à animalidade decorre da redução geral à fisiologia, ou ao homem
concebido como síntese das funções orgânicas.
Daí as palavras que designam a anatomia ou as funções orgânicas, sobretudo o
sexo, serem usadas nos contextos naturalistas não apenas como denotação, mas
como gemas que se engastam para serem contempladas por si mesmas, porque
assumiam um valor moral e social que se sobrepõe ao intuito científico. “Teta”,
por exemplo, é um designativo técnico, e deve portanto substituir o vago “colo”
dos clássicos ou o específico “seio” dos românticos, porque permite abranger
mais espécies do que a humana e assim impor a visão do homem mergulhado na
vasta comunidade orgânica dos mamíferos, rompendo a sua excepcionalidade.
Frequentemente a visão fisiológica se transforma em lubricidade e até
obscenidade, que podem ser, de um lado, mera constatação da grosseria e da
vulgaridade nas relações humanas; mas que de outro parece às vezes uma
condenação, uma certa reprovação daquilo que, no entanto, deveria ser
considerado natural. N’O cortiço a gama do ato sexual é extensa, desde a
comicidade quase de anedota, como a posse de Leocádia no capinzal por um
Henriquinho extremamente matreiro, que segura pelas orelhas o coelho branco
prometido como preço, até a posse de Piedade, bêbada, pelo vagabundo Pataca,
com a filha observando e um vômito final de conspurcação.
A “pensão do sexo”
Aluísio
não apenas se afasta desse gosto pelo aspecto saudável das funções
fisiológicas, mas altera a relação “função fisiológica-manifestação individual”,
incluindo um mediador entre ambas, o mesmo que dirige o relacionamento geral
dos personagens: a natureza física, No caso, natureza física do Brasil,
encarnada ainda aqui pelo Sol como manifestação simbólica. E vemos mais uma vez
como as condições locais interferem no processo de difusão literária,
estabelecendo maneiras também peculiares de constituir o discurso.
Um dos centros de interesse da narrativa, n’O cortiço, é o pequeno drama da
nubilidade de Pombinha. Os sinais não aparecem, apesar da moça ter quase
dezoito anos, e há uma expectativa geral, indiscreta, da mãe, do noivo, dos
vizinhos, que fazem perguntas do tipo “já veio?”, “já chegou?”. Aluísio a
introduziu n’O cortiço, onde dá lugar à cena de mais rasgada violência sexual.
A cocotte francesa Léonie protege Pombinha, se interessa pelo seu casamento e
acaba iniciando-a no homossexualismo feminino. Mas é justamente esse ato
desnatural que, ao contrário do desabrochar espontâneo de Pauline Quenu,
provoca finalmente os sinais da maturidade sexual. (No fim do livro, Pombinha, tornada prostituta própria, retoma com a
filha abandonada de jerônimo o tipo de proteção depravada que recebera da
francesa).
Com efeito, um dia depois de violentada, mas ao mesmo tempo despertada
sexualmente pela cocotte, a mocinha adormece no capinzal ao fundo do cortiço e
sonha que está numa “floresta vermelha cor de sangue”, deitada na corola de
enorme rosa vermelha, fascinada pelo sol, que desce como borboleta de fogo e
solta sobre ela “uma nuvem de poeira dourada”. Pombinha acorda sentindo “a
puberdade sair-lhe afinal das entranhas em uma onda vermelha e quente”.
Força e fraqueza das
mediações
N’O
cortiço está presente o mundo do trabalho, do lucro, da competição, da
exploração econômica visível, que dissolvem a fábula e sua intemporalidade.
Mas
então entra em cena um jogo de mediações, que modificam a relação entre ficção
e realidade, porque, como ficou dito, os fatos narrados tendem a ganhar um segundo
sentido, de cunho alegórico. Visto deste ângulo, o cortiço passa a representar
também o Brasil, na medida em que o espaço limitado onde atua o projeto
econômico de João Romão figura em escorço as condições gerais do país, visto
como matéria-prima de lucro para o capitalista.
O fato de ser brasileiro levou Aluísio a interpor uma camada mediadora de
sentido entre o fato particular (cortiço) e o significado humano geral (pobreza,
exploração). Mas no livro de Aluísio, entre a representação concreta particular
(cortiço) e a nossa percepção da pobreza se interpõe o Brasil como
intermediário. Havia
uma tal necessidade de autodefinição nacional, que os escritores pareciam
constrangidos se não pudessem usar o discurso para representar a cada passo o
país, desconfiando de uma palavra não mediada por ele.
Resumo/Estudo feito por Angélica Pereira, para matéria Poéticas do Espaço no mestrado de Estudos Literários da Universidade Federal de Uberlândia UFU.








