Espaço alunos

6 de dezembro de 2015

O discurso e a cidade: O Reino animal / A Pensão do Sexo / Força e Fraqueza das Mediações

CANDIDO, Antonio. De cortiço a cortiço. In: ___. O discurso e a cidade. São Paulo; Rio de Janeiro: Duas Cidades; Ouro sobre Azul, 2004, p. 123-152.
 O Reino Animal

Uma espécie de animalidade geral que tem sido apontada por mais de um crítico em todos os planos do livro, a começar pelo conjunto da habitação coletiva, vista como “aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas”, que manifestam o “prazer animal de existir”, mais atenuado noutro trecho, onde se fala d’”aquela massa uniforme de machos e fêmeas a comichar, a fremir concupiscente, sufocando-se uns aos outros”; e logo depois vemos “as mulheres (que) iam despejando crianças com uma regularidade de gado procriador”.
Mesmo em contexto não sexual as mulheres aparecem “mostrando a uberdade das tetas cheias”, o que ocorre também quando se trata de cada uma isoladamente, como na cena em que o Henriquinho (um hóspede no sobrado do Comendador Miranda), vê da janela Leocádia lavando roupas e o “tremular das redondas tetas à larga”.
Essa animalização feita pelo narrador se mostra brutais para as normas daquele tempo: Como nessa passagem que mostra o pranto de Piedade de Jesus: “O mugido lúgebre daquela pobre criatura abandonada antepunha à rude agitação do cortiço uma nota lamentosa e tristonha de uma vaca chamando ao longe, perdida ao cair da noite num lugar desconhecido e agreste”.
A passagem acima nivela o homem ao bicho, enquanto organismos sujeitos ambos às leis decorrentes da sua estrutura. Até em efeitos estilísticos meramente descritivos vemos a mesma tendência:
“a sua crina preta, desgrenhada, escorrida e abundante como as das éguas selvagens”.
A redução à animalidade decorre da redução geral à fisiologia, ou ao homem concebido como síntese das funções orgânicas.
Daí as palavras que designam a anatomia ou as funções orgânicas, sobretudo o sexo, serem usadas nos contextos naturalistas não apenas como denotação, mas como gemas que se engastam para serem contempladas por si mesmas, porque assumiam um valor moral e social que se sobrepõe ao intuito científico. “Teta”, por exemplo, é um designativo técnico, e deve portanto substituir o vago “colo” dos clássicos ou o específico “seio” dos românticos, porque permite abranger mais espécies do que a humana e assim impor a visão do homem mergulhado na vasta comunidade orgânica dos mamíferos, rompendo a sua excepcionalidade.
Frequentemente a visão fisiológica se transforma em lubricidade e até obscenidade, que podem ser, de um lado, mera constatação da grosseria e da vulgaridade nas relações humanas; mas que de outro parece às vezes uma condenação, uma certa reprovação daquilo que, no entanto, deveria ser considerado natural. N’O cortiço a gama do ato sexual é extensa, desde a comicidade quase de anedota, como a posse de Leocádia no capinzal por um Henriquinho extremamente matreiro, que segura pelas orelhas o coelho branco prometido como preço, até a posse de Piedade, bêbada, pelo vagabundo Pataca, com a filha observando e um vômito final de conspurcação.

A “pensão do sexo”
Aluísio não apenas se afasta desse gosto pelo aspecto saudável das funções fisiológicas, mas altera a relação “função fisiológica-manifestação individual”, incluindo um mediador entre ambas, o mesmo que dirige o relacionamento geral dos personagens: a natureza física, No caso, natureza física do Brasil, encarnada ainda aqui pelo Sol como manifestação simbólica. E vemos mais uma vez como as condições locais interferem no processo de difusão literária, estabelecendo maneiras também peculiares de constituir o discurso.
Um dos centros de interesse da narrativa, n’O cortiço, é o pequeno drama da nubilidade de Pombinha. Os sinais não aparecem, apesar da moça ter quase dezoito anos, e há uma expectativa geral, indiscreta, da mãe, do noivo, dos vizinhos, que fazem perguntas do tipo “já veio?”, “já chegou?”. Aluísio a introduziu n’O cortiço, onde dá lugar à cena de mais rasgada violência sexual. A cocotte francesa Léonie protege Pombinha, se interessa pelo seu casamento e acaba iniciando-a no homossexualismo feminino. Mas é justamente esse ato desnatural que, ao contrário do desabrochar espontâneo de Pauline Quenu, provoca finalmente os sinais da maturidade sexual. (No fim do livro, Pombinha, tornada prostituta própria, retoma com a filha abandonada de jerônimo o tipo de proteção depravada que recebera da francesa).
Com efeito, um dia depois de violentada, mas ao mesmo tempo despertada sexualmente pela cocotte, a mocinha adormece no capinzal ao fundo do cortiço e sonha que está numa “floresta vermelha cor de sangue”, deitada na corola de enorme rosa vermelha, fascinada pelo sol, que desce como borboleta de fogo e solta sobre ela “uma nuvem de poeira dourada”. Pombinha acorda sentindo “a puberdade sair-lhe afinal das entranhas em uma onda vermelha e quente”.

Força e fraqueza das mediações
N’O cortiço está presente o mundo do trabalho, do lucro, da competição, da exploração econômica visível, que dissolvem a fábula e sua intemporalidade.
Mas então entra em cena um jogo de mediações, que modificam a relação entre ficção e realidade, porque, como ficou dito, os fatos narrados tendem a ganhar um segundo sentido, de cunho alegórico. Visto deste ângulo, o cortiço passa a representar também o Brasil, na medida em que o espaço limitado onde atua o projeto econômico de João Romão figura em escorço as condições gerais do país, visto como matéria-prima de lucro para o capitalista.
O fato de ser brasileiro levou Aluísio a interpor uma camada mediadora de sentido entre o fato particular (cortiço) e o significado humano geral (pobreza, exploração). Mas no livro de Aluísio, entre a representação concreta particular (cortiço) e a nossa percepção da pobreza se interpõe o Brasil como intermediário. Havia uma tal necessidade de autodefinição nacional, que os escritores pareciam constrangidos se não pudessem usar o discurso para representar a cada passo o país, desconfiando de uma palavra não mediada por ele.

Resumo/Estudo feito por Angélica Pereira, para matéria Poéticas do Espaço no mestrado de Estudos Literários da Universidade Federal de Uberlândia UFU.

Nenhum comentário:

Postar um comentário