Espaço alunos

16 de abril de 2015

Resumo "Dom Quixote e o problema da realidade" - Alfred Schutz

            “Dom Quixote e o problema da realidade” é um artigo escrito por Alfred Schütz, publicado no livro ‘Teoria da Literatura em suas fontes’, que compõe um modelo de crítica sociológica.
            O autor inicia o artigo com a seguinte pergunta: “Sob que circunstâncias consideramos as coisas como sendo reais?” É um questionamento feito Wiliam James, um filósofo, em seu livro “Princípios de Psicologia”. De acordo com Wiliam James toda distinção entre real e irreal, sempre se baseia em dois fatores mentais, primeiro, que somos propícios a pensar de modo diferente sobre o mesmo objeto. Segundo, que, quando o fazemos, podemos escolher qual o modo de pensar a que queremos aderir e qual ignorar.
            Existe um número considerável de diferentes ordens da realidade, às quais Wiliam chama de “subuniversos”. Entre eles, encontra-se o mundo dos sentidos ou das “coisas físicas”; o mundo da ciência; das relações ideais; dos mundos sobrenaturais, tais como céu e o inferno cristãos; os numerosos mundos da opinião individual, e finalmente os mundos da pura ociosidade e loucura.  Cada um desses mundos, enquanto desperta nossa atenção, é real ao seu próprio modo. Ele afirma que a origem e a fonte de toda realidade, sempre está, em nós mesmos.
            O objetivo do texto é analisar o problema da realidade na obra de Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. Apresentar a tese de que o romance de Cervantes trata sistemática e exatamente do problema das múltiplas realidades. Mostrando isso com alguns exemplos de passagens da obra.
Para continuar lendo o texto, clique abaixo:


            O autor levanta então, os seguintes questionamentos: Como se explica que Dom Quixote possa continuar conferindo valor a realidade, a seu subuniverso de fantasia, se isto conflitua com a realidade preponderante, na qual não existem castelos, exércitos nem gigantes, mas tão somente estalagens, rebanhos de carneiros e moinhos de vento?  Como é possível que o mundo particular de Dom Quixote deixe de ser solipsístico, que haja outros mundos dentro desta realidade, não meramente como objetos da experiência de Dom Quixote, mas compartilhando com ele, pelo menos até certo ponto, a crença na realidade, real ou potencial? * Solipsístico - concepção filosófica de que, além de nós, só existem as nossas experiências. O mundo da cavalaria para Dom Quixote é um subuniverso fechado, no qual ele confere o valor de realidade. A função das atividades dos encantadores na obra é justamente garantir a coexistência e a compatibilidade de diversos subuniversos de significado ao se referir às mesmas coisas, e garantir a manutenção do valor de realidade conferido a alguns desses universos. Os encantadores mudam o esquema de interpretação que prevalece em um subuniverso no esquema de interpretação válido em outro. Nossa relação com o mundo social se baseia na pressuposição de que, apesar de todas as variações individuais, os mesmos objetos são experimentados por nossos semelhantes da mesma forma como nós mesmos o fazemos e vice-versa. O mesmo objeto experimentado por mim pode ter um esquema de interpretação diferente para cada um de vocês.
            Se a crença na identidade substancial da experiência intersubjetiva do mundo se rompe, então a própria possibilidade de estabelecer comunicação com os nossos semelhantes fica destruída.  Assim, ficamos convencidos de que cada um de nós vive numa concha impenetrável de sua própria prisão solipsística.
            O que parece a Dom Quixote um escudo, parece a Sancho apenas uma bacia de barbeiro e a outro ainda pode ser alguma outra coisa. Cervantes  mostra como é possível estabelecer esse discurso entre o cavalheiro e o escudeiro, quando ambos têm bons argumentos para afastar as discrepâncias. Dom Quixote diz que por Sancho não ser um cavalheiro e por Sancho ter medo, ele fica impedido de ver e ouvir corretamente. Já Sancho percebe que ele tem que aceitar o encantamento como um esquema de interpretação, para estabelecer um universo de discurso com Dom Quixote, ele aprende a se expressar como um seguidor obediente. Tanto que mais tarde, de tanto ouvir Dom Quixote dizer que a bacia era um escudo, ele chega a definir a bacia como uma “bacia-escudo”.
            Em uma estalagem em que Dom Quixote estava hospedado, e que ele acreditava ser um palácio encantado, apareceu o barbeiro dono da bacia e dono da propriedade, reclamando sua propriedade e aproveitou para pedir que Sancho devolvesse sua bacia também. O grupo de cavalheiros que estava na estalagem resolveu entrar na brincadeira e todos afirmaram que a bacia é na verdade um escudo, até que o próprio barbeiro começa a acreditar que sua bacia podia ser mesmo um escudo já que tantos cavalheiros honrados começavam a dizer a aquilo.
            Como Dom Quixote, como nós, Sanchos Panças, conseguimos manter nossa crença na realidade do subuniverso fechado que escolhemos uma vez como nossa base doméstica, apesar das inúmeras irrupções de experiências que o transcendem?
            Dom Quixote assiste a um teatro de fantoches intitulado “A libertação de Melissandra”. Ele sabe, através de seus livros de cavalaria, que o cavalheiro Dom Gaiferos salva Melissandra da escravidão dos mouros. Para ele, essa cena constitui um fato histórico.  No início do teatro ele critica e diz que está tudo errado, mas as poucos a peça se apodera de Dom Quixote, causando-lhe medo e compaixão.  Na parte em que os mouros estão perseguindo os fugitivos, Dom Quixote sente que é seu dever ajudar a dama Melissandra, pega sua espada e desfecha golpes nos fantoches, mesmo com o dono da peça gritando que não eram mouros de verdade e sim bonecos de papelão.  
            Nós, Sanchos Panchas do mundo do senso comum, ao nos sentarmos na platéia, desejamos transpor o valor da realidade do mundo da vida cotidiana que nos circunda para o mundo do palco, assim que a cortina se levanta, nós também vivemos num reino diferente da realidade. Mas, a realidade dos acontecimentos do palco é de natureza diferente da nossa realidade cotidiana.
            Esta realidade dos acontecimentos no palco é de natureza inteiramente diferente da de nossa vida cotidiana. Esta se passa no único subuniverso no qual podemos dirigir nossas ações, podemos mudar através delas e na qual podemos estabelecer comunicação com nossos semelhantes. Essa característica fundamental da realidade de nossa vida cotidiana é precisamente a razão pela qual este subuniverso é experimentado por nós como a realidade preponderante de circunstâncias e do ambiente que temos de enfrentar. O autor explica que nós da plateia, os observadores, somos impotentes com relação a realidade que ocorre no teatro, como observadores temos de suportá-la ou apreciá-la, mas não estamos em situação de interferir nela, muda-la através de nossas ações.
            Dom Quixote que assume outro subuniverso que não o da realidade preponderante da vida cotidiana como sua base doméstica, não pôde perceber que o mundo do teatro é separado do seu subuniverso particular de fantasia.
            Encontramos em sua aventura com o teatro de fantoches a ruptura entre três reinos da realidade: Mundo fantástico da cavalaria: onde o cavaleiro tem de interferir a fim de ajudar uma bela dama; Mundo do teatro, no qual tudo é apenas representado, sob a forma do faz-de-conta por  fantoches, sem se admitir qualquer interferência por parte da plateia; E em terceiro lugar, a triste realidade da vida cotidiana, na qual figuras de papelão podem ser esmigalhadas e na qual o dono do show apresenta uma conta pelo prejuízo que a intromissão de nossos sonhos neste mundo real lhe causa.
            No fim da obra, Dom Quixote descobre que até mesmo seu subuniverso é particular, que o reino da cavalaria poderia passar de um sonho e que seus prazeres passam como sombras. Tendo perdido em sua cavalaria andante sua missão celestial, Dom Quixote tem de se preparar, depois de sua morte espiritual, para seu fim físico. E assim ele morre, não mais como Dom Quixote de La Mancha, mas como Alonso Quixano, um homem que se considera em juízo perfeito, liberto das sombras confusas da ignorância com que sua permanência no reino da fantasia o haviam obscurecido.

Resumo de: Angélica Pereira, 16/04/15.

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