Seguem
alguns trechos importantes do livro ‘ O que é arte?’
“Dizer o que é arte é uma coisa difícil.
(...) Se buscamos uma resposta clara e definitiva, decepcionamo-nos: elas são
divergentes, contraditórias, além de freqüentemente se pretenderem exclusivas,
propondo-se como solução única. (...) Tantas e tão diferentes são as concepções
sobre a natureza da arte. Entretanto se pedirmos a qualquer pessoa que possua
um mínimo contato com a cultura para nos citar alguns exemplos de obras de arte
ou de artistas, ficaremos certamente satisfeitos.” (p. 7)
“Arte são certas manifestações da
atividade humana diante das quais nosso sentimento é admirativo. (...) Se não
conseguimos saber o que a arte é, pelo menos sabemos quais coisas correspondem
a essa idéia e como devemos nos comportar diante delas.” (p. 8)
(Para continuar lendo o resumo, clique em 'Mais informações')
“Se a arte é noção sólida e
privilegiada, ela possui também limites imprecisos.” (...) Para decidir o que é
ou não arte, nossa cultura possui instrumentos específicos. (...) O discurso
sobre o objeto artístico, ao qual reconhecemos competência e autoridade. Esse
discurso é proferido por um crítico, historiador de arte, perito, conservador
de museu. São aqueles que conferem o estatuto de arte a um objeto. Nossa
cultura também prevê locais específicos onde a arte pode manifestar-se, quer
dizer, locais que também dão estatuto de arte a um objeto. Num museu, numa
galeria, sei de antemão que encontrarei obras de arte; num cinema de ‘arte’,
filmes que escapam à ‘banalidade’ dos circuitos normais; numa sala de concerto,
música ‘erudita’, etc.” (p. 10 – 11)
“Nossa cultura prevê instrumentos que
determinarão, por mim, o que é ou não arte. (...) O importante é termos em
mente que o estatuto de arte não parte de uma definição abstrata, lógica ou
teórica, do conceito, mas de atribuições feitas por instrumentos de nossa cultura,
dignificando os objetos sobre os quais se recai.” (p.11)
Coli diz que muitas obras que
antes eram incontestáveis e consideradas obras-primas, mais tarde se
desvalorizaram, ou ainda, outras de menor importância foram reavaliadas e
resgatadas, recebendo alto valor artístico. Além das opiniões que se
confrontam, elevando ou diminuindo determinadas obras, antes consideradas
incontestáveis.
“A autoridade institucional do discurso
competente é forte, mas inconsistente e contraditória, e não nos permite
segurança no interior do universo das artes.” (p.23)
“O importante não é assimilar seu estilo
ao que supomos seja o gótico ou a pintura de Renascença, mas descobrir o que o
artista revela como preocupações, como visão, qual sua especificidade entre as
artes de seu tempo.” (...) “As obras são sempre mais do que nos dizem as
pretensas definições!” (p.37)
“Estamos diante de produtos que nos
escapam, que se desenvolvem de modo tão inesperado, tão pouco previsível que,
para os dominar, não resistimos à tentação fácil de os classificar. E essas
classificações passam a ser mais importantes do que as obras.” (p.37-38) –
relação com o livro “A palavra pintada”.
Coli diz que é crítico de arte é
um juiz que desvaloriza ou valoriza um objeto artístico.
“Um crítico de cinema freqüentemente
conhece os filmes do passado, o que lhe permite um jogo de comparações
intuitivas ou explícitas, capaz de levá-lo a condenar este ou aquele filme. Mas
isso, além de não ser absolutamente necessário (desnecessário), não se confunde
com a construção da história dos objetos artísticos no tempo.” (p.38)
Entendo aqui que o que o crítico
acha ou deixa de achar não influenciará a trajetória histórica dos objetos
artísticos, pois muitas obras perdem ou ganham valor com o passar do tempo. São
lembradas ou esquecidas, sempre dependendo da sociedade e contexto dos momentos
históricos onde se inserem.
“Dispor os objetos artísticos ‘para nós’
significa fazê-los vir de outras culturas e outros tempos.” (p.69)
Coli diz que ao ‘rotularmos’ e
‘etiquetarmos’ artefatos artísticos estamos os transformando também. E sempre
que o contexto onde este artefato está inserido se modifica, a experiência com
ele se modifica também. (Poder do leitor? De Barthes?! Ruído de Umberto Eco.)
“As emoções causadas por um filme mudo,
no público ao qual era destinado não podem ser as mesmas que o mesmo filme
suscita agora em nós.” (p.72)
A experiência do cinema na época do
cinema mudo era uma e a experiência do cinema sonoro, colorido e 3D agora é
outra bem diferente.
“A obra não é um absoluto cultural,
tampouco um absoluto material, pois vive e se modifica.” As modificações que
sofre com o passar do tempo e espaço, ‘atuam profundamente na percepção da
obra’. (p.79)
“As artes não são imutáveis.” (p.83) “O
conjunto das obras faz pensar numa grande geleira: aparentemente imutável, ela
se desloca, no entanto, e possui contínuos movimentos interiores. É impossível
domesticar a geleira.” (p.88)
“A arte não é um elemento vital, mas um
elemento da vida.” (Mário de Andrade)
Coli diz que a arte reside no
supérfluo e na gratuidade. “Se a arte é associada a um objeto útil, ela é,
nele, um supérfluo.” (p.89)
Quando objetos recebem determinada
atenção e valor, “sua transformação em arte acarretou o gratuito: ela não faz
mais parte de um sistema racional de utilidade. E, livre, o supérfluo emerge
como essencial.” (p.92)
“No passado, e ainda hoje, os objetos
artísticos possuíram funções sociais e econômicas que permitiram sua
constituição e seu desenvolvimento: antes de ser arte, o crucifixo foi objeto
de culto, o filme um espetáculo a ser consumido. Da igreja ou da produção
comercial, para o museu ou para a cinemateca, a passagem impõe a perda da
função primitiva.” (p.92-93)
“Posso descrever uma obra, desenvolver
uma análise, assinalar este ou aquele problema, propor relações e comparações.
Entretanto, tudo isso significa apenas indicar alguns modos de aproximação do
objeto artístico, nunca esgotá-lo. O artista nos dá a perceber sua obra por
modos que posso talvez nomear, mas que escapam do discurso, pois jamais
deixarão de pertencer ao campo do não-racional.” P.107
“A arte sempre se desvia por caminhos
incontroláveis, mesmo quando aparentemente obedece.” (p.109)
Coli utiliza a definição de poesia do
autor Eliot (A função social da poesia) para falar que a arte é algo que não se
pode formular, definir, no entanto, é possível compreender. (p.110)
“A arte pode nos parecer obediente e
mensageira, mas logo percebemos que ela é sobretudo portadora de sinais, de
marcas deixadas pelo não-racional coletivo, social, histórico.” (p.110)
“A arte tem assim uma função que
poderíamos chamar de conhecimento, de ‘aprendizagem’. Seu domínio é o do
não-racional, do indizível, da sensibilidade: domínio sem fronteiras nítidas,
muito diferente do mundo da ciência, da lógica, da teoria. Domínio fecundo,
pois nosso contato com a arte nos transforma. Porque o objeto artístico traz em
si, habilmente organizados, os meios de despertar em nós, em nossas emoções e
razão, reações culturalmente ricas, que aguçam os instrumentos dos quais nos
servimos para apreender o mundo que nos rodeia. Entre a complexidade do mundo e
a complexidade da arte existe uma grande afinidade.” (p.111)
“A arte não isola, um a um, os elementos
de causalidade, ela não explica, mas tem o poder de nos ‘fazer sentir’.”
(p.112)
“A arte constrói, com elementos
extraídos do mundo sensível, um outro mundo, fecundo em ambigüidades.”
(...) “Buscamos a arte pelo prazer que
ela nos causa.” (p.113)
“As emoções artísticas são ricas e
fecundas, o prazer e evasão só são ‘alienações’ num primeiro momento:
transformando nossa sensibilidade, elas transformam também nossa relação com o
mundo.” (p.114)
“A fruição da arte não é imediata,
espontânea, um dom ou graça; Pressupõe esforço diante da cultura. Para que
possamos emocionar-nos, palpitar sobre o espetáculo de uma partida de futebol,
é necessário conhecermos as regras desse jogo, do contrário tudo nos passará
despercebido, e seremos forçosamente indiferentes. (...) A arte exige um
conjunto de relações e de referências muito mais complicadas. Pois as regras do
jogo artístico evoluem com o tempo, envelhecem, transformam-se nas mãos de cada
artista. Tudo na arte é mutável , complexo, ambíguo e polissêmico. Com a arte
não se pode aprender regras de ‘apreciação’. E a percepção artística não se dá
espontaneamente.” (p.117-118)
“Uma fato de uma grande obra ter sido
consumida por um largo público significa apenas que ela possuía elementos
capazes de seduzir um grande número de pessoas num momento determinado.”
(p.118)
“Na nossa relação com a arte nada é
espontâneo. Quando julgamos um objeto artístico dizendo ‘gosto’ ou ‘não gosto’,
mesmo que acreditemos manifestar uma opinião ‘livre’, estamos na realidade
sendo determinados por todos os instrumentos que possuímos para manter relações
com a cultura que nos rodeia. ‘Gostar’ ou ‘não gostar’ não significa possuir
uma ‘sensibilidade inata’ ou ser capaz de uma ‘fruição espontânea’ – significa
uma reação do complexo de elementos culturais que estão dentro de nós diante do
complexo cultural que está fora de nós, e isto, é a obra de arte.” (p.119)
“Nas obras-primas dos mestres tudo nos
instrui. Acontece, porém, que essas obras-primas que nos enriquecem são por sua
vez enriquecidas por nós. Cada geração descobre nelas um sentido antes
despercebido.” (Emile Mâle apud Jorge Coli) (p.119-120)
“Os objetos artísticos encontram-se
intimamente ligados aos contextos culturais: eles nutrem a cultura, mas também
são nutridos só por ela e só adquirem razão de ser nessa relação dialética, só podem
ser apreendidos a partir dela.” (p.120)
Coli diz que é importante ter contato
com os objetos artísticos para despertar esta sensibilidade á arte. É preciso
observar detalhadamente, descrever, refletir, problematizar, transitar e se
aprofundar. E diz que os textos que definem obras de arte devem ser
relativizados, já que são apenas visões e análises possíveis, mas não
‘tradutores e explicadores absolutos da obra, mesmo quando autoritariamente,
pretendem sê-lo. É importante servir-se dos textos com cautela.’ (p.123)
“Freqüentar uma obra é, antes de tudo,
um ato de interesse!” (p.123)
Coli afirma que para o despertar
sensível acontecer é preciso freqüentar a obra (como diz Bergala), pois é ‘na
freqüentação da obra que a intersubjetividade pode se dar’. (...) “A frequentação permite descobrir e
percorrer, que nos ‘sintonizamos’ com o outro, numa relação particular que a
vida cotidiana desconhece. (p.128)
Para que tudo isso aconteça é
preciso disponibilizar este acesso, mas no Brasil sabemos que a realidade é
outra. Coli diz que ainda é um território pouco explorado e expandido. Quem tem
acesso é um privilegiado e técnicas de reprodução seriam insuficientes (ver
filmes na TV e não no cinema). “É necessário poder ler”, tocar, ouvir,... Por
isso o esforço, empenho e interesse é redobrado ou a experiência cultural
permanece pobre e superficial.
Conclusão
Coli defende que preferiu se debruçar
sobre a relação obra-espectador e sobre objetos artísticos, pois para entrar no
terreno da Arte, seria
preciso falar de estética.

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