Angélica
Pereira Martins Chagas
Março/2018
Na segunda aula da matéria Literatura, Memória e Identidades com a professora Joana Muylaert
assistimos ao documentário “Os Catadores
e Eu” de Agnès Varda. Agnès Varda apresenta em seu documentário um famoso
quadro de um pintor francês chamado Jean-François Millet, o quadro mostra três
camponesas recolhendo espigas de trigo caídas no chão após a colheita e é
intitulado Des glaneuses (As
respigadoras). Respigar significa
apanhar no campo (as espigas/restos que ali ficam após a colheita). A cineasta
mostra pessoas que ainda na sociedade contemporânea são ‘catadoras’, algumas
que o fazem por prazer e até doam o que recolhem; outras que vivem a partir da
recuperação do que sobra na colheita ou de coisas aleatórias que as pessoas
abandonam.
Na
mesma aula havíamos lido o texto “O
rastro e a cicatriz: metáforas da memória” de Jeanne Marie, retirado do
livro Lembrar, Esquecer, Escrever
(2006). Com a leitura percebemos que a lembrança e a memória são conduzidas
pela escrita, um rastro duradouro que os homens que escrevem deixam de si
mesmos. Mas a escrita não é apenas rastro, mas também ‘restos’ não intencionais
deixados. Jeanne Marie Gagnebin diz que “podemos - e talvez devamos - continuar
a decifrar os rastros e a recolher os restos. Tarefa silenciosa, anônima, mas
imprescindível do narrador autêntico” (GAGNEBIN, 2002, p.125).
Em Os Catadores e Eu,
Agnès Varda encontra pela França respigadores e recuperadores. Pessoas que
buscam os restos deixados por outras pessoas por necessidade ou por vontade
própria. A própria Agnès Varda se mostra uma ‘catadora’, ‘recuperando’ imagens
pela França de pessoas que não querem registrar esses momentos e os vão
deixando para trás. A cineasta constrói seu filme com sua pequena câmera e por
suas próprias mãos: “mãos que envelhecem” durante essa busca
pelas imagens.
Na
história da ferida que vira cicatriz – em "Colóquio de Ulisses e de
Penélope - A lavagem dos pés", na Odisseia de Homero – Jeanne Marie aponta
noções de filiação, de aliança, de poder da palavra e de necessidade da
narração. Jeanne Marie explica:
Quando
Walter Benjamin fala do fim da narração e o explica pelo declínio da
experiência, ele retoma exatamente os mesmos motivos: a continuidade entre as
gerações, a eficácia da palavra compartilhada numa tradição comum e a temática
da viagem de provações, fonte da experiência autêntica — mesmo que seja para
afirmar que estes motivos perderam suas condições de possibilidade na nossa
(pós)modernidade. A cicatriz de Ulisses nos prometia, então, que a história,
apesar de todos os sofrimentos, terminaria bem e parece que ainda hoje
escutamos ressoar o barulho da bacia que Euricléia derruba, vemos a água
esparramar-se no chão da sala escura e gostaríamos de acreditar nessa bela,
mesmo que diferida, promessa de reconhecimento e de realização. (GAGNEBIN, 2006,
p.109)
Durante o documentário Os Catadores
e Eu aparece um ‘respigador’ que o
faz aproveitando restos das colheitas em seu restaurante. Dentre as muitas
justificativas que ele apresenta e explica a cineasta Agnès Varda como:
- ‘respigo porque assim
sei de onde vem os alimentos que utilizo na minha cozinha’;
- ‘respigo para não ter
que comprar alimentos congelados por três meses’;
- ‘respigo porque no
restaurante usamos várias ervas que para serem compradas custaria muito’;
A primeira justificativa que deu para explicar seu ato de
respigar foi:
- ‘respigo,
primeiramente, porque meus pais o faziam’.[1]
Sua primeira justificativa pode ser relacionada ao que Jeanne
Marie diz sobre a noção de filiação/a
continuidade entre as gerações, o cozinheiro respigava, primeiramente porque
foram seus pais que o ensinaram a respigar, porque o fazia com seus pais e dar continuidade
ao ato de respigar é uma forma de recuperar e manter viva a memória desse ato
realizado com os pais. Uma forma de fazer essa memória não se perder, não se
esquecer.
Jeanne Marie
termina o texto com o seguinte trecho:
O
chiffonier, anota Benjamin, é a figura provocatória da misé- ria humana. Também
é uma nova figura do artista. Com aquilo que é jogado fora, rejeitado,
esquecido, com esses rastros/restos de uma civilização do desperdício e, ao
mesmo tempo, da miséria, trapeiros, poetas e artistas constróem suas coleções,
montam suas "instalações", seu "pequeno museu para o resto do
mundo" na expressão do artista russo Ilya Kabakow, citado por Aleida
Assmann. Poderíamos também evocar Arthur Bispo do Rosário e suas infinitas
coleções de latas usadas ou de barbantes. Ao juntar os rastros/restos que
sobram da vida e da história oficiais, poetas, artistas e mesmo historiadores,
na visão de Benjamin, não efetuam somente um ritual de protesto. Também cumprem
a tarefa silenciosa, anônima mas imprescindível, do narrador autêntico e, mesmo
hoje, ainda possível: a tarefa, o trabalho de apokatastasis, essa reunião
paciente e completa de todas as almas no Paraíso, mesmo das mais humildes e
rejeitadas, segundo a doutrina teológica (julgada herética pela Igreja) de
Orígenes, citado em mais de uma passagem por Benjamin. Hoje não existe mais
nenhuma certeza de salvação, ainda menos de Paraíso. No entanto, podemos — e
talvez mesmo devamos — continuar a decifrar os rastros e a recolher os restos.
(GAGNEBIN, 2006, p.118)
O
aspecto da continuidade das gerações pode ser visto também no objeto de estudo
do meu trabalho A menina do sobrado
do escritor mineiro Cyro dos Anjos. O livro de memórias mostra a figura paterna
sempre viva na memória do narrador. Como no exemplo abaixo:
Só
de raro em raro o pai abria mão dos enfadonhos e intermináveis minutos de
leitura. Fazia questão de transmitir ao clã o que achara proveitoso nos livros
mandados vir por intermédio de caixeiros-viajantes ou adquiridos pessoalmente,
na viagem anual ao Rio. Lia pausado, intercalando comentários, sem se preocupar
com a nossa ansiedade, que muitas vezes se fazia patente. (ANJOS, 1979, p.10)
Trecho
em que o narrador apresenta a forte relação de seu pai com os livros e
posteriormente demonstra ter herdado o mesmo gosto pela leitura. Sobre a
filiação Jeanne Marie diz que a escrita ressaltando a aliança familiar é feita como
se o laço não fosse, por si só, suficiente e devesse ser assegurado/enfatizado em
público (GAGNEBIN, 2006, p.108,109). A memória da família se mostra presente na
escrita e traços da filiação/da continuidade entre as gerações podem ser observados no documentário de Agnès Varda e
na obra de Cyro dos Anjos.
Referências Bibliográficas
Anjos, Cyro dos. A menina do sobrado. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1994.
Gagnebin, Jeanne Marie. Lembrar escrever esquecer. São Paulo:
Ed. 34, 2006. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1963209/mod_resource/content/1/GAGNEBIN%2C%20Jeanne%20Marie.%20O%20que%20significa%20elaborar%20o%20passado.pdf
Gagnebin, Jeanne Marie. O rastro e a cicatriz: metáforas da memória.
Pro-Posições - vol. 13, N. 3 (39) - set./dez. 2002. Disponível em: https://www.fe.unicamp.br/pf-fe/publicacao/2164/39-dossie-gagnebimjm.pdf
Imagem de “As Respigadoras” – Jean-François Millet. Disponível em: https://institutopoimenica.com/2012/06/23/as-respigadoras-jean-franois-millet/
[1]
Transcrevi aqui as justificativas do ‘cozinheiro respigador’ da mesma forma com
que me lembrei de suas palavras ao assistir o documentário e não suas falas
diretas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário