Espaço alunos

14 de abril de 2019

A menina desacreditada...

Ninguém acreditava nela. Não que ela só dissesse mentiras e ninguém te desse atenção... É que ninguém dava crédito a ela. Confiança. 
Passado algum tempo ela acreditou que deveria alcançar tudo que imaginava. Pensava que sua cabeça não era normal, era peculiar o modo com que visualizava alguma coisa em sua mente e, de repente, o fato ocorria. 
Não adiantava contar aos outros, mas ela sabia que era verdade. Certa vez, recordara que imaginou a morte de certo tio. Tio daqueles distantes, que na verdade é irmão de outro tio e que nem vínculo sanguíneo possua a ela. Passado dias da imaginação, veio a notícia do falecimento. Como poderia chegar ao céu? Aquele tio que tanto temia o "capitão" dos ares? Ela não se atentou muito a isso. Mas quando o céu escurece, os trovões se alteram e o céu fica feio... Ela se lembra do medo que tinha o tio, do capitão dos céus.
Mas por quê começar falando disso... nada tem a ver com a verdadeira história. O que se pretende contar é a visão peculiar que ela sempre teve das coisas. Condições eram coisas que não lhe pertenciam... Mas ela não se deu por satisfeita e foi atrás dos grandes sonhos. Trabalhando numa lojinha qualquer, uma boutique de roupinhas semi-caras da pacata cidade, ela resolveu sair de lá... Não arrumara outro emprego, não tinha brigado com os patrões e gostava bastante do dinheirinho que ganhava lá - dinheiro aquele que era destinado às idas do supermercado da esquina, gasto com massas de lasanhas e coca-cola, que levava para casa e pedia a mãe que preparasse o repetido jantar dos finais de semana, a espera do namorado. Os jantares poderiam continuar, o namorado ficou até hoje... mas a situação da loja teve que parar, para outro motivo conseguir alcançar. 
O ensino público nunca foi lá essas coisas... E para entrar na faculdade precisava estudar. Na escola não ia conseguir; ora porque os colegas não deixavam, ora porque os professores mesmo não queriam. Mas tinha próximo, ali... um cursinho. Lá havia alguns professores melhores... De alguns ela não entendeu nada, os números misturados às letras não lhe atraiam... Mas dos mestres das humanas ela bem entendia e compreendia conteúdos não vistos até aquele dia.
Valeu o esforço, saiu o resultado. Certa vez ela visitou um Centro Universitário da cidade ao lado... Profetizou: Quero estudar aqui! Era lugar bonito de se ver, parecia coisa de televisão. Gente alegre, gente bonita, gente de vários lugares da região. Passou a frequentar de graça a oportunidade de estudo, um programa de governo lhe ofereceu a grande chance, aliando sua realidade financeira ao seu esforço e boa nota na prova. Não foi o mar de rosas sonhado... Não fez amizades ali. Desistiu sobre isso e até pensou... Já passou da idade de fazer amizades!
Até que apareceu um dia um professor. Não era tradicional, não era dali... Veio diferente, veio ousado e logo percebeu potencial na menina. Ele disse: Vai ser gauche na vida! E ela ouviu, resolveu ser diferente. Estudou, não acreditou, mas passou... Numa faculdade mais distante! Lá ela chegou receosa, não queria papo, não iria se iludir... Mas os rostinhos novatos, aqueles desconhecidos de cara boa, pegaram a menina de jeito. Quantas amizades foram construídas ali? Talvez não amizades profundas de segredos e confissões. Mas foram inúmeros os coleguismos, as pessoas que até hoje param e se jogam num grande abraço com votos sinceros de "passar bem". No meio delas uma amizade foi selada e o vínculo travado até no papel, tornando-se madrinhas de casamento uma da outra. Ela descobriu que vivia fora de seu tempo. As moças de sua idade não poderiam mesmo ser suas amigas, ela só teve amigas mais velhas, pois a cabeça de maturidade e seriedade não suportava os devaneios jovens demais. Foi chamada de 'velha' na brincadeira por muita gente da família... inclusive quanto ao modo de se vestir. 
Não sendo velha, aos poucos mais de vinte já cursava doutorado. Ainda no Ensino Médio, ela tinha escrito aquilo, feito as contas de quantos anos teria para chegar lá. Desde a data anotada em sua agendinha, estava atrasada em seus planos em apenas um ano. Já que o destino que a gente espera, pode não ser o destino traçado por Deus - que colocou no ano que fez o atraso, seu casamento a ser realizado. No dia do casamento, em meio a maquiagem, nervoso e vazio, chega a notícia da aprovação, foi um dia de alegria que não coube no coração.
Na festança só tinha gente do colégio... Aquele que ela não estudara, mas passara na porta e profetizara... "Um dia eu vou trabalhar aqui!". Lá estava ela no colégio tão sonhado, agora como professora e chegou até a subir de cargo. O encargo foi um grande salto, tirou-lhe o sossego, a fez pensar que não conseguiria.
Então ela não pensou... E só se jogou. Aprendeu novas habilidades e os planos se embaralharam... Vou ensinar literatura, espera... Tenho gostado de Tecnologia. Vou viajar ao México, espera... Um convite aos Estados Unidos? Vou estudar espanhol, mas... Preciso do inglês. E Deus foi desenhando... Foi acreditando nela... E ela desacreditou de pensar em acreditar nos seus planos tão bem escritos e a partir daquele ano deixou... Deus tomar a caneta de sua mão e lhe mostrar a próxima direção.

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